Material Didático

Feminino X Masculino

A dança das polaridades dentro de você e dentro do seu relacionamento

Um conteúdo de Luiza Vono
Índice

Sumário

Parte I

Fundamentos

Antes de falar de feminino e de masculino, Luiza propõe entender por que essas energias existem, como elas se movem e por que buscar o equilíbrio perfeito é, na verdade, uma armadilha.

1 O porquê: o propósito por trás da busca

Luiza costuma abrir esse tema com uma pergunta que repete sempre, em qualquer contexto: em uma mensagem que se quer mandar para um homem, em uma atitude que se quer tomar, em uma conversa individual. A pergunta é simples e incômoda: por quê? Por que você quer mandar essa mensagem? Por que você quer fazer isso? Para quê?

Ela explica que essa pergunta, repetida até a raiz, sempre leva à origem, ao que realmente importa. E é olhando para o que realmente importa que se toma melhores decisões: este caminho que estou seguindo é mesmo o melhor caminho para o meu propósito?

Aplicada a este tema, a pergunta fica assim: por que você quer compreender melhor o feminino e o masculino? Para que você quer isso? Luiza é direta ao apontar o risco de uma resposta mal colocada: se o objetivo é apenas conquistar um homem, fazer com que ele aja de determinado jeito ou controlar o resultado de uma relação, o conhecimento sobre feminino e masculino deixa de ser uma ferramenta de saúde emocional e vira manipulação, ainda que de forma inconsciente. E manipulação, segundo ela, não é boa nem má em si (um remédio manipulado também é manipulado), mas manipular o outro e levar essa pessoa por um caminho que não é o dela, isso sim adoece a relação e cria dependência, uma simbiose que não é saudável.

O porquê que eu espero que você encontre dentro de você para compreender melhor o feminino e o masculino é que você se sinta mais leve, que você seja feliz, que você flua na sua vida.
Luiza Vono

Por isso, o convite inicial é: coloque o seu porquê dentro de você, não no outro, não no relacionamento, não no trabalho. Antes de olhar para qualquer homem, olhe para você mesma. Essa busca pela leveza e pela fluidez na própria vida é o que dá sentido a tudo o que vem a seguir.

2 As polaridades e o movimento do pêndulo

Feminino e masculino, explica Luiza, são apenas mais uma das polaridades que regem o universo, ao lado de quente e frio, claro e escuro, bom e mal, vítima e algoz, dia e noite. Essas polaridades existem para buscar equilíbrio: um mundo só de noite não teria a vida gerada pelo dia, e regiões do planeta com desequilíbrio entre claro e escuro (como os polos) sofrem, de fato, uma descompensação que afeta quem vive ali.

Mas há um detalhe importante: o equilíbrio perfeito, entendido como um ponto parado e estável, não existe na natureza. Nada fica parado: uma planta está sempre crescendo ou morrendo, a grama está sempre crescendo ou morrendo. Com as pessoas é igual: ou estamos evoluindo, ou estamos involuindo. Por isso, buscar polaridade não é buscar um ponto fixo de equilíbrio, e sim uma tentativa constante de equilíbrio, uma dança.

A imagem do pêndulo

Luiza usa o movimento do pêndulo para explicar essa dança. O pêndulo balança entre dois extremos: claro e escuro, dia e noite, bom e mal. Integrar as polaridades não é anular os dois lados (não é deixar de ser bom ou de ser mal, de ser dia ou de ser noite), porque isso simplesmente não existe. Integrar é a dança do pêndulo entre um lado e outro, sem se fixar nas extremidades.

Aplicado a este tema: estar completamente em um polo (100% no feminino ou 100% no masculino) não é saudável. A integração entre feminino e masculino é o que traz leveza, fluidez e facilidade para a vida. Não se trata de deixar de ser feminina ou de deixar de ser masculina, mas de dançar entre as duas energias, dentro de si mesma, com naturalidade.

3 A lei da compensação

Se o universo é regido por polaridades, um efeito direto aparece quando alguém se fixa em um extremo: o ambiente, as pessoas ao redor ou algo dentro da própria pessoa tendem a produzir o extremo oposto, para que a compensação aconteça. Luiza chama isso de lei da compensação e recomenda anotar a expressão.

O exemplo que ela traz é direto: quem está no extremo do algoz (quem manipula, oprime, força) tende a encontrar, no ambiente, alguém no extremo oposto, o da vítima, para que a compensação se realize. É assim, segundo ela, que nascem relacionamentos tóxicos: o algoz precisa da vítima, a vítima precisa do algoz, num processo inconsciente, mas real.

Quanto mais extremo eu estiver em uma polaridade, mais eu vou buscar a compensação. Se eu sou o algoz, vou encontrar, se não for em mim, no ambiente, alguém no extremo oposto, na vítima, para que a gente se compense.
Luiza Vono

A mesma lógica vale para feminino e masculino: quem ativa, com constância, apenas a energia masculina tende a atrair, ao redor, alguém que ative predominantemente a energia feminina, e vice versa, numa tentativa automática de compensação. Perceber essa lei é o primeiro passo para sair da compensação inconsciente com o ambiente e passar a fazer, de forma deliberada, a integração dentro de si.

4 Energia e comportamento: o que é feminino e o que é feminilidade

Antes de descrever as energias em detalhe, Luiza faz uma distinção que evita um erro comum: confundir feminino com feminilidade.

Duas ideias diferentes

Feminino é a energia que existe dentro de cada pessoa, independentemente de gênero. É força interna, não aparência.

Feminilidade é o conjunto de comportamentos, atributos e elementos usados para apresentar essa energia ao mundo: o jeito de se vestir, de se arrumar, de se comportar. São recursos, não a energia em si.

Por isso, uma mulher que usa peças do armário masculino, como camisa, blazer e gravata, pode ser extremamente feminina; o inverso também é verdade. Usar determinado tipo de roupa para tentar atrair um homem mais masculino não é o que efetivamente ativa o feminino: arrumar o cabelo ou usar um vestido são recursos de feminilidade, mas o feminino é a energia que está por trás, e essa energia se revela nos comportamentos, não apenas na aparência.

Luiza recorre a Jung para dar base a essa ideia: ele chamava de anima a energia feminina e de animus a energia masculina, e sustentava que ambas existem em todas as pessoas, suprimidas ou aparentes, e que se revelam através do comportamento. É esse o recorte que orienta todo o restante deste material: comportamentos, forças e situações em que o feminino e o masculino de cada pessoa se apresentam para o mundo.

Parte II

O Feminino

Intuição como superpoder, o caos como beleza e a fé como caminho de travessia: a energia feminina apresentada a partir de exemplos concretos de relacionamento.

5 O superpoder do feminino: intuição

Para Luiza, o superpoder da energia feminina é a intuição. E ela é honesta sobre o motivo pelo qual tantas mulheres não sabem acessar essa força: essa não é uma habilidade que a maioria de nós foi ensinada a desenvolver.

Ativar a intuição significa fazer coisas de que nos afastamos ao longo da vida: olhar para dentro, perceber, sentir, meditar, conectar. Luiza ilustra isso com humor, imaginando uma mãe dizendo à filha, na faculdade, para respirar fundo e se conectar consigo mesma: a reação esperada seria de estranhamento, porque a mensagem que recebemos foi outra, a de buscar respostas fora, estudar, perguntar a professores e mentores. Tudo o que aponta para fora, ela observa, é energia masculina, e ela chega a usar a própria fisiologia como imagem: o órgão masculino é voltado para fora, externo; o órgão sexual feminino é voltado para dentro, interno.

Por isso, o superpoder feminino ficou, para muitas mulheres, sem uso: não foi ensinado, não foi praticado. A boa notícia, segundo Luiza, é que a intuição é treinável, e a Parte V deste material traz justamente exercícios para isso.

A conselheira: intuição em ação dentro da relação

Quando a intuição se desenvolve, ela leva a um lugar específico dentro do relacionamento: o de ser conselheira do parceiro. Luiza é clara em dizer que esse é um papel dos dois lados: tanto o homem quanto a mulher, quando são parceiros de verdade, ocupam esse lugar de aconselhar um ao outro, cada um a partir da sua energia. Ele tende a trazer o conselho a partir de uma visão de energia masculina; ela tende a trazer o conselho a partir de uma visão de energia feminina. O conselho vindo do lugar feminino traz leveza, confiança e paz, porque leveza, paz, amor, carinho e aconchego são atributos dessa energia.

6 Os atributos do feminino: criar, nutrir, aprimorar

Além da intuição, Luiza lista outras formas pelas quais a energia feminina se manifesta: criatividade, nutrição, carinho, paciência, leveza e aprimoramento.

O feminino recebe a semente da vida, aprimora a semente da vida e transforma em vida. O feminino dá a vida; o masculino leva para a vida.
Luiza Vono

Para explicar esse verbo, aprimorar, ela usa a imagem de um buquê de flores: recebo um maço enrolado em plástico, corto os caules, retiro folhas em excesso, coloco em um vaso com água e um pouco de conservante, distribuo as flores em alturas diferentes, e o que era apenas um maço embrulhado se torna um arranjo. O feminino aprimora e devolve melhor; é o que transforma uma casa em lar.

O feminino também é a energia que vê beleza em tudo, capaz de se emocionar com o que a maioria deixaria passar despercebido. Luiza conta que sua filha, ainda pequena, olhou para as árvores balançando ao vento e disse: mãe, elas dançam. Para Luiza, essa é a essência do feminino: não é necessariamente o belo em si, mas a capacidade de ver beleza, inclusive onde parece haver apenas desordem.

7 A beleza do feminino: o caos

Essa é a segunda palavra chave que Luiza pede para guardar. O feminino é caos. Ela sustenta essa ideia com exemplos da própria natureza: uma mulher parindo um filho é caos, não ordem; uma leoa defendendo os filhotes na selva é caos; o mar revolto é caos. A natureza, diz ela, é feminina, e é selvagem, é caótica.

Ela também aponta que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, o que de fato atrai não é necessariamente o controle e o arrumado, e sim a entrega e a naturalidade. E amplia esse caos para o próprio corpo: os ciclos hormonais fazem com que, ao longo de um único mês, uma mulher viva versões diferentes de si mesma, com humores, desejos e disposições que mudam de semana para semana. Reconhecer isso, para Luiza, não é motivo de vergonha, é motivo de aceitação.

Quando eu aceito o caos em mim, eu me torno mais atraente. Eu me torno magnética, porque sou capaz de relaxar.
Luiza Vono

A lógica é simples: quem está tentando organizar o próprio caos não está relaxada, está pesada. E o magnetismo, segundo Luiza, nasce justamente do relaxamento, de soltar o controle sobre o que os outros pensam, de viver o caos sem se policiar o tempo todo. Ela dá um exemplo do cotidiano: a pessoa que muda de ideia sobre um programa em minutos (de manhã não queria tomar café fora, à noite já está se arrumando para sair) pode encarar isso com leveza e humor, junto do parceiro, em vez de transformar a mudança de ideia em briga.

Para a semana

Aceite o seu caos. Aceite que você é, sim, uma pessoa que muda de ideia, de humor, de disposição, e que isso não é um defeito a ser corrigido, é parte da sua energia feminina.

8 Sobrevivendo ao caos: a fé

Se o feminino é caos, como não se perder nele? Essa é a pergunta que leva à terceira palavra chave do bloco: a .

A fé é confiar sem saber como, sem ver, sem enxergar. É acreditar de forma inquestionável, de olhos fechados. Ela não fala necessariamente de religiosidade, ela fala de espiritualidade.
Luiza Vono

Luiza descreve ferramentas concretas para atravessar os momentos de caos mais pesado (aquela vontade de largar tudo, pedir demissão, mudar de cidade, fechar a empresa, que ela garante que todas as mulheres sentem, mais de uma vez, porque o feminino é caos):

Ela também recorre a exemplos de fé como ato, não apenas como sentimento: cita a passagem bíblica das bodas de Caná, em que o primeiro milagre de Jesus só acontece depois que alguém, por fé, traz os potes de água, um passo humano antes do resultado esperado. E compartilha um caso pessoal: diante de uma decisão de contratação em sua própria empresa que, pela análise financeira fria, apontava para o não, ela escolheu seguir pelo ato de fé, entendendo que, naquele momento, precisava equilibrar o masculino da análise com o feminino da fé.

As três palavras do feminino

Força (superpoder): intuição.
Beleza: o caos, e a aceitação do próprio caos como fonte de magnetismo.
Travessia: a fé, que sustenta a pessoa dentro do caos sem que ela precise controlar tudo.

O resultado de usar bem a energia feminina, resume Luiza, é atrair sem esforço: as coisas acontecem, fluem, sem que seja preciso correr atrás. Isso costuma acontecer, segundo ela, exatamente nos momentos em que a pessoa está mais solta, mais entregue ao momento, sem pensar no que os outros vão achar.

Parte III

O Masculino

Hiperfoco como superpoder, ordem como beleza e realização como resultado: a energia que dá direção, protege e concretiza.

9 Superpoder, beleza e resultado do masculino

Depois de percorrer o feminino em detalhe, Luiza organiza o masculino no mesmo formato: um superpoder, uma beleza e um resultado.

O masculino em três palavras

Superpoder: hiperfoco.
Beleza: ordem.
Resultado: realização.

O masculino é a energia voltada para fora: objetividade, concretização, plano, foco, ação, proteção, força, estratégia. Se o feminino dá a vida, o masculino leva para a vida: na imagem que Luiza usa, a mãe dá a vida à criança, o pai leva essa criança para o mundo e apresenta o mundo externo a ela. São movimentos diferentes e igualmente necessários.

É também o masculino que, segundo Luiza, evita que o caos do feminino vire caos permanente e sem direção: enquanto o feminino sente, cria e flui, é o masculino que pergunta se esse é mesmo o caminho certo, que estabelece limites, horários e critérios. Sem essa contraparte, o feminino sozinho arrisca ficar cego, sem avaliar nada, deixando tudo simplesmente acontecer.

10 O masculino protege o feminino

Luiza propõe uma leitura que evita uma armadilha comum: a de achar que essa frase significa, literalmente, que homens protegem mulheres, como se mulheres sem um homem por perto estivessem, por definição, desprotegidas.

O masculino em mim me protege. E, quando eu sei que o masculino em mim me protege, eu não preciso mais que o outro me proteja. Quando ele me protege, é bom também, mas eu não dependo só disso.
Luiza Vono

O exemplo que ela traz é o de uma mãe solo: se toda a proteção viesse apenas de um homem externo, mãe e filho estariam desprotegidos na ausência dele. Mas, segundo Luiza, quando o homem sai para prover ou está ausente por qualquer razão, a mulher ativa dentro de si tanto o feminino quanto o masculino, porque não há alternativa: no feminino puro, sem ordem e sem estrutura, uma criança pequena não sobrevive. É o masculino interno, então, que garante estrutura, direção e proteção, com ou sem a presença de um parceiro.

Dessa ideia nasce uma frase que Luiza repete com frequência em seu trabalho:

Você não precisa confiar num homem. Você precisa confiar em você, na sua capacidade de escolher um bom homem.
Luiza Vono

Essa frase é a ponte para o próximo bloco deste material, dedicado a como as duas energias trabalham juntas dentro de uma relação.

Parte IV

Integração na Prática

M P

Como o feminino e o masculino se combinam na comunicação com o parceiro, na confiança, na escolha, nas raízes familiares e nas amizades.

11 A conselheira: o feminino a serviço da relação

Este é um dos pontos mais práticos deste tema: como usar o feminino integrado no dia a dia da relação, especialmente na forma de falar com o parceiro.

O que não é ser conselheira

Luiza descreve o que ela chama de mulher trator: aquela que, insegura sobre o próprio feminino e masculino, dirige a vida do parceiro de fora, como quem vai no banco do carona e fica corrigindo cada curva do motorista. No exemplo que ela usa, ele está dirigindo e ela vai dizendo por que ele não pega aquele outro caminho, por que não estaciona ali, por que não faz diferente. O efeito, segundo ela, não é cuidado, é desconfiança disfarçada de conselho: eu não confio no que você está fazendo, eu sei mais do que você.

Isso não é ser conselheira, isso é ser a mulher trator, que atropela. Eu não confio, eu não sou capaz de me entregar para você dirigir o carro.
Luiza Vono

Ela relaciona diretamente esse comportamento à falta de integração do próprio masculino: quando não confio no meu masculino interno, preciso manter o controle absoluto de tudo ao redor, inclusive de decisões que não são minhas para tomar.

O que é ser conselheira

A conselheira que usa a energia feminina integrada não ensina, não corrige e não fala de um lugar de eu sei mais do que você, porque isso vira competição e revela insegurança. Ela ouve de verdade: ouve a versão do outro, o sentimento dele, sem julgar e sem já estar pensando na solução ou em outra coisa enquanto ouve.

Eu sou convite. Eu não sou imposição. Eu não mando. Eu tenho algumas percepções, algumas sensações, e pergunto se a pessoa quer ouvir.
Luiza Vono
Exemplo de diálogo, comentado

Situação: ele chega em casa do trabalho com cara de derrotado.

Resposta integrada: Meu amor, tudo bem? (Ele diz que sim, mas ela percebe que não.) Eu tô percebendo que não tá tudo bem. O que você precisa hoje? Você quer um vinho? Quer ficar quieto? Quer conversar? Eu tô aqui, você precisa de mim?

Note que, nessa fala, não há nenhuma pergunta do tipo por que você não faz X, nem nenhuma ordem disfarçada de sugestão. Há espaço, escuta e uma pergunta genuína sobre a necessidade do outro naquele momento.

Quando ele desabafa com raiva (por exemplo, sobre um projeto de trabalho que não anda), a resposta que compete com ele, do tipo já falei para você pedir demissão, abrir a empresa com seu primo, é o que Luiza chama de um homem disputando com outro homem, ainda que vindo de uma mulher. A resposta integrada é de curiosidade genuína: é mesmo? Me fala mais. Os caras não te ouviram? Você deve estar se sentindo subutilizado, né?

Lembrar, não mandar

Um dos pontos centrais desse bloco é a diferença entre dizer ao outro o que fazer e lembrar o parceiro de quem ele já é. Quando alguém está em dúvida sobre uma decisão importante, a conselheira integrada não dita o caminho, ela resgata na memória do parceiro os próprios valores e histórico dele: você lembra daquele projeto que você tirou do papel? Você lembra que honestidade é importante para você? Você lembra como você se posicionou naquela outra reunião?

Eu não falo para ele o que ele tem que fazer. Eu lembro ele de quem ele já é.
Luiza Vono

Isso só é possível, explica Luiza, porque ela realmente ouviu essas histórias antes, sem julgar e sem já estar pensando em outra coisa. É esse acúmulo de escuta genuína que permite, mais tarde, dizer com propriedade e não como frase feita: vai dar tudo certo, porque eu conheço você, porque eu sei do que você é capaz. Dizer isso apenas para encerrar uma conversa incômoda, sem esse lastro, é o oposto de estar integrada: é estar entediada com o outro e querer se livrar da conversa.

12 Confiança: confiar em você antes de confiar nele

Luiza retoma aqui uma pergunta recorrente: por que a falta de confiança no outro estaria ligada à falta de integração do próprio masculino?

A resposta que ela dá é que confiar, entregar o controle, deixar o outro dirigir, literal e simbolicamente, só é possível quando a pessoa confia no próprio masculino interno. Quem não tem essa confiança precisa manter o controle de tudo, porque, no fundo, não confia em ninguém, nem em si mesma. E, quando essa base não existe, cada decisão do parceiro (ele dirigir, ele decidir algo por conta própria) é sentida como ameaça, não como parceria.

O exercício de olhar para o pai

Para trabalhar essa questão, Luiza propõe olhar para a forma como cada pessoa enxerga o próprio pai, como referência simbólica do masculino no mundo. Luiza costuma usar como exemplo o caso de uma mulher que descrevia o pai como alguém que, à primeira vista, parecia banana, porque não fazia as tarefas domésticas, enquanto a mãe fazia tudo; olhando com mais cuidado, porém, o pai foi o provedor financeiro da casa, à sua maneira. A reflexão que Luiza propõe é: essa é a lente através da qual você aprendeu a enxergar o masculino, e é essa mesma lente que, sem perceber, você aplica ao avaliar a confiabilidade de outros homens.

Ela também usa esse mesmo relato para mostrar como o feminino e o masculino se ativam por necessidade: quando o pai passava o dia inteiro fora trabalhando, a mãe, em casa, precisava ativar tanto o feminino quanto o masculino, porque, no feminino puro (isto é, no caos sem estrutura), uma criança não sobrevive. Alguém precisa também trazer ordem.

Copos cheios, não copos pela metade

Quando alguém não tem essa integração resolvida dentro de si, tende a entrar em um relacionamento esperando, inconscientemente, que o parceiro supra o que faltou na própria história (o masculino que faltou no pai, o feminino que faltou na mãe), colocando o outro, sem perceber, no lugar de pai ou de mãe. Quando a integração acontece dentro da pessoa, a expectativa muda:

A gente vem para se somar. Não são dois copos pela metade, um completando o outro. São dois copos muito cheios, e a gente transborda junto.
Luiza Vono

13 Atração e escolha: quando usar cada energia

Luiza é enfática ao afastar uma leitura simplista de tudo o que foi dito até aqui: não existe um momento em que se usa só o feminino e outro em que se usa só o masculino, como se fossem compartimentos estanques. As duas energias operam o tempo todo, mas com pesos diferentes conforme a fase da relação.

O problema, segundo ela, é entrar em uma relação usando só o feminino: a pessoa atrai pela química e pela sedução, mas nunca avalia se os valores são compatíveis, se os planos de vida se encaixam, se aquele é o momento certo na vida do outro para um relacionamento. Mais adiante, quando aparecem sinais de que algo não vai bem (ele mente, ele some, ele não dá notícia), a decepção nasce exatamente da avaliação que nunca foi feita.

Não é feminino lá e masculino aqui, é feminino e masculino o tempo todo. Eu uso minha energia feminina para atrair e minha energia masculina para avaliar.
Luiza Vono

A analogia que Luiza usa é a de comprar um carro apenas porque gostou da cor, sem avaliar se ele serve para o uso que se pretende dar a ele: se o carro falha depois, na estrada, não há a quem culpar, porque a informação já estava disponível antes da escolha. Em outras áreas da vida, ela observa, costumamos assumir a responsabilidade por decisões mal avaliadas; na vida amorosa, seguimos com frequência transferindo a responsabilidade para o outro (ele não avisou, ele não considerou), quando, na origem, faltou avaliação de quem escolheu.

Perguntas de avaliação, no lugar do masculino
  • Esse é o parceiro certo, é isso mesmo que eu quero viver?
  • Os valores dele são compatíveis com os meus?
  • Os planos de vida dele são parecidos com os meus?
  • O momento de vida dele comporta um relacionamento agora?

14 O triângulo de segurança: pai, mãe e Deus

Luiza conecta a busca por segurança, muito presente em toda a conversa, a uma necessidade praticamente antropológica: para se desenvolver, o ser humano precisa de segurança, e a primeira fonte dessa segurança é ter tido um pai e uma mãe.

Quando essa segurança inicial ficou fragilizada (uma infância caótica, um pai ausente, uma relação de dor com a mãe), a tendência é compensar assumindo, sozinha, todo o peso do masculino: controlar tudo, decidir tudo, se responsabilizar por tudo, porque foi essa a segurança que a pessoa precisou construir para si mesma.

Resgatar a força, não o comportamento

O convite de Luiza é revisitar essa história, mas não para julgar os pais nem para reviver mágoas: é para resgatar, simbolicamente, a força que vem de cada um deles, independentemente de como a relação real tenha sido.

Eu resgato deles a força, não o comportamento. É a energia. É o que veio de dentro, não é o que eles fizeram ou deixaram de fazer.
Luiza Vono

Da mãe, mesmo que a relação tenha sido difícil, é possível resgatar a intuição, o carinho, o amor e a paciência que fazem parte da energia feminina dela. Do pai, mesmo ausente ou desconhecido, é possível resgatar o foco, a objetividade, a meta e o plano de ação que fazem parte da energia masculina dele. Luiza é enfática: isso vale inclusive para quem foi adotada e nunca conheceu os pais biológicos, porque a conexão proposta é com a força, não com a pessoa física.

A esse resgate de pai e mãe, Luiza acrescenta uma terceira força: a de algo maior, chamada por ela de Deus, do divino, da fonte, da natureza, ou do nome que cada pessoa preferir usar. As três forças juntas, o pai, a mãe e essa força superior, formam o que ela chama de triângulo de segurança, e é dele que vem a coragem para seguir em frente, mesmo sem ter tido, na prática, uma relação fácil com um ou com os dois pais.

Um cuidado importante

Esse trabalho é sobre a própria pessoa, não sobre julgar ou tentar mudar a mãe ou o pai. A percepção que eles tiveram da própria história é deles, e não cabe a quem ouve reinterpretar ou corrigir essa percepção. O que se resgata é a força; a relação real segue sendo o que sempre foi.

15 Redes de apoio: mulheres precisam de mulheres

Antes de passar aos exercícios, Luiza dedica um bloco a um tema que, segundo ela, sustenta tudo o que foi dito até aqui: mulheres precisam de outras mulheres.

Mulheres precisam de amigas mulheres, de rede de apoio, porque, senão, você vai jogar toda essa carga em alguém, e esse alguém costuma ser o parceiro. Não vai ser leve.
Luiza Vono

Ela argumenta que amizades adultas costumam parecer mais difíceis de construir do que realmente são: elas exigem a mesma dedicação de qualquer outra construção importante, uma empresa, uma obra, um relacionamento. É preciso querer, se oferecer, perguntar, ouvir de verdade, sem julgar, e insistir presencialmente, porque, como ela resume, ninguém constrói uma amizade só online, colocando um tijolo por vez à distância.

No relato pessoal que compartilha, Luiza descreve como o grupo de amigas mais próximo dela nasceu de iniciativas concretas: organizar um encontro, se colocar à disposição para ajudar quem tinha acabado de mudar de cidade, insistir em marcar um encontro presencial mesmo diante de recusas educadas, ser autêntica o suficiente para se expor (o episódio em que ela recusou publicamente usar slides em uma apresentação virou até um apelido dentro de um grupo do qual participava, e foi isso que aproximou pessoas que hoje são suas madrinhas de casamento).

Reflexão prática

Quem são as pessoas ao seu redor com quem você pode aprender feminino e masculino na prática? Você tem hoje uma rede de apoio de mulheres, ou está colocando no seu parceiro todo o peso emocional que poderia ser dividido com amigas?

Parte V

Exercícios Práticos

Esta parte reúne dois exercícios guiados de respiração e visualização propostos por Luiza, e um exercício de percepção para praticar durante a semana.

16 Exercício 1: rumo à vida

Este é o primeiro exercício guiado deste material, feito com os olhos fechados e depois abertos, combinando respiração e visualização com as duas mãos.

Passo a passo
  1. Fique sentada ou em pé, com os pés apoiados no chão e as mãos sobre as coxas.
  2. Solte todo o ar dos pulmões pelo nariz, bem devagar, até esvaziar completamente. Em seguida, puxe o ar aos poucos, também pelo nariz, até encher totalmente o pulmão.
  3. Segure o ar por cerca de quatro segundos (gestantes não devem prender a respiração) e solte tudo de novo, devagar, até esvaziar por completo.
  4. Abra os olhos sem tentar entender, controlar ou racionalizar o que vier a seguir. Apenas deixe fluir.
  5. Estenda a mão esquerda à sua frente. Ela representa a sua vida. Observe: o que existe lá na frente da sua vida, esperando por você? Sinta, sem cobrar de si mesma uma resposta.
  6. Levante também a mão direita e a coloque na frente da mão esquerda, entre você e a vida. Ela representa aquilo que se coloca no caminho: uma barreira. Observe quem ou o que aparece aí (pode ser uma pessoa, um medo, um peso, uma lembrança) e perceba se o seu olhar consegue atravessar essa barreira e alcançar a vida, ou se fica preso nela.
  7. Se fizer sentido, diga em voz alta: agora eu vejo que você está aqui. E agora eu assumo o comando da minha vida. Eu escolho ir para a vida, e você não me impede mais.
  8. Vá abaixando a mão direita aos poucos, mantendo o olhar na mão esquerda e permitindo que ela se aproxime de você.
  9. Profetize em voz alta o que você escolhe para a sua vida: um relacionamento leve, uma decisão de trabalho, uma amizade, uma mudança de hábito. Seja específica.
  10. Respire com calma mais algumas vezes e retorne, aos poucos, a atenção para o ambiente ao redor.

É comum, ao fazer este exercício, identificar a própria mão direita como a barreira, ou seja, perceber que a barreira é a própria pessoa, e não alguém de fora. Também é comum não sentir nada de imediato e só reencontrar leveza no momento de profetizar coisas boas para a própria vida. Luiza reforça que ambas as experiências são válidas: se não sentir nada, também está tudo bem, o convite é para repetir o exercício outras vezes.

17 Exercício 2: força ancestral

O segundo exercício guiado aprofunda o tema do triângulo de segurança (pai, mãe e uma força superior), trazendo a e para o corpo, por meio do toque.

Versão completa
  1. Pés apoiados no chão, mãos sobre as coxas, olhos fechados, respiração lenta e profunda pelo nariz. Relaxe a mandíbula, solte a língua do céu da boca, relaxe os ombros e o abdômen, sem tentar mudar nada, apenas observando.
  2. Imagine o seu pai ao seu lado direito, tocando o seu ombro direito. Sinta a força do masculino chegando por meio desse toque.
  3. Imagine a sua mãe se aproximando pelo lado esquerdo, tocando o seu ombro esquerdo. Sinta a força da vida, o feminino, despertando com esse toque.
  4. Amplie a imagem: atrás do seu pai estão os avós, bisavós e demais ancestrais paternos; atrás da sua mãe estão as avós, bisavós e demais ancestrais maternos, especialmente as mulheres da família. Sinta essas forças se integrando ao seu corpo, sobretudo na região do ventre.
  5. Visualize, agora, uma força superior descendo do alto, entrando pelo topo da sua cabeça como um grande canal, e se integrando às forças de pai e de mãe já reunidas em você.
  6. Com as três forças juntas, pai, mãe e a força superior, sinta o impulso, a coragem e a vontade de seguir em frente. Se fizer sentido, diga em voz alta: eu escolho ir para a vida agora.
  7. Imagine se dando um ou dois passos à frente, sentindo que toda essa força ancestral continua com você, dando suporte, mesmo enquanto você se move.
  8. Respire com calma, retornando aos poucos a atenção para o ambiente, e abra os olhos quando se sentir pronta.
Versão simplificada, para o dia a dia

Pode ser feita em menos de dois minutos, por exemplo no banho: uma respiração completa (esvaziar e encher os pulmões), tocar o ombro direito para lembrar a força do pai, tocar o ombro esquerdo para lembrar a força da mãe, reconhecer rapidamente avós e bisavós de ambos os lados, receber a força superior e, com os braços estendidos à frente, dar um passo em direção à vida. Luiza recomenda repetir esse gesto várias vezes ao dia, com consistência, para sustentar a sensação de força ao longo da rotina.

É comum sentir a presença da mãe muito forte e o lado do pai mais vazio, ou o oposto. Luiza orienta, em ambos os casos, seguir repetindo o exercício sem pressa: a força está lá, mesmo quando ainda não é sentida, e tende a se revelar com a prática repetida, sem necessidade de entender ou racionalizar o processo antes de sentir essa força.

18 Exercício de casa: percepção da beleza

Para encerrar, Luiza propõe um exercício simples para ser praticado ao longo da semana seguinte, sem estrutura de passos, apenas de atenção.

Convite para a semana

Nos próximos dias, para onde quer que você vá, perceba. Veja se as árvores dançam. Repare nos passarinhos. Veja beleza nas cores, nas pessoas, nos prédios. E, principalmente, experimente: você é capaz de ver beleza até no caos, como um trânsito caótico? Esse é um exercício de sentir, não de entender.

Encerramento

Quadro síntese, reflexão e créditos

Quadro síntese geral

O quadro abaixo reúne, lado a lado, os principais conceitos apresentados ao longo deste material.

Eixo Feminino Masculino
Superpoder Intuição Hiperfoco
Beleza Caos Ordem
Resultado Atração sem esforço, fluidez Realização, concretização
Travessia Estratégia
Direção Interno, para dentro Externo, para fora
Papel na vida Dá a vida Leva para a vida
Atributos Criatividade, nutrição, carinho, paciência, leveza, aprimoramento Objetividade, plano, foco, ação, proteção, força, estratégia
Fase da relação Atração e conquista Avaliação e escolha
Referência simbólica Mãe e ancestrais maternas Pai e ancestrais paternos

As duas energias existem em todas as pessoas e operam juntas o tempo todo; a tabela organiza ênfases, não compartimentos estanques.

Frases para guardar
  • Eu sou convite. Eu não sou imposição.
  • Você não precisa confiar num homem. Você precisa confiar em você, na sua capacidade de escolher um bom homem.
  • O feminino dá a vida, o masculino leva para a vida.
  • Não são dois copos pela metade. São dois copos muito cheios: a gente transborda.
  • Quando eu aceito o caos em mim, eu me torno magnética.
  • Está tudo bem. Não tem nada de errado com isso.

Valeu a pena?

Ao entrar em contato com essas ideias, é comum notar mais integração e mais clareza de que se pode usar as duas energias a favor da própria vida. É comum também perceber que os desafios vividos refletem o desequilíbrio entre feminino e masculino, notar o convite para voltar à fé e lembrar que essa é uma jornada contínua, sem um fim definitivo.

Antes de seguir para as informações finais, vale fazer a mesma pergunta para você: por que valeu a pena?

Sobre este material

Feminino X Masculino

TítuloFeminino X Masculino
AutoriaLuiza Vono
Tratamento editorialO conteúdo foi organizado em capítulos, com definições, citações e exercícios destacados, para uso como material de estudo.